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Tereza Santos da Silva

Sobre

Tereza Santos da Silva nasceu a 05/10/1951, em Itajaí/SC. É graduada em Letras (1979); Mestre em Linguística (Sociolinguística) pela UFSC (1998) onde se aposentou em 2002. Professora colaboradora da UDESC (2002-2012); Professora da UNIVALI (1985-1976; 2002-2005). Tem experiência na área de Linguagem, com ênfase em Linguística Textual (com publicação de Cadernos Pedagógicos e artigos científicos). Dedica-se à Literatura Infanto-juvenil (Três obras). Participa de manifestações da Cultura Popular (um livro e diversos artigos). Atualmente é membro do IHGSC e Casa dos Açores de Santa Catarina.

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Economia, cultura e religião em Camboriú

                                                                     Prof. Tereza Santos da Silva

                                                

Este texto tem como principal objetivo destacar inicialmente alguns aspectos importantes do desenvolvimento econômico, cultural e religioso de Camboriú, segundo o panorama investigativo contido em diversas obras já publicadas sobre esse tema, a começar pela pesquisa inédita do historiador Isaque de Borba Corrêa, autor de Camboriú e Balneário (Camboriú): a história de duas cidades (1985; 2019). Toma-se também por base as investigações dos renomados pesquisadores José Ângelo Rebelo (1997) e Edison D´Ávila (2018), ambos do mesmo modo versados em histórias locais e regionais, entre outros autores, reconhecidos no meio acadêmico.

Procura-se, principalmente, traçar um paralelo com relação ao estabelecimento de certas religiões em Camboriú ao longo da existência desses Municípios. Nesse sentido, ainda são recuperados certos fatos históricos, ocorridos principalmente no âmbito religioso, alguns abordados por esta autora os quais também contribuem para elucidar aspectos pontuais acerca dos referidos temas que estão imbricados na evolução política e sociocultural de Camboriú.

Em 1779, o Governador da Província, Miranda Ribeiro, em um documento que ele intitula de Relatório Sobre a Capitania de Santa Catarina, descreve a situação social e econômica do Estado. Nesse tempo, o território que hoje compreende Camboriú pertencia à Vila de Nossa Senhora da Graça do Rio São Francisco Xavier do Sul (a atual São Francisco). Nesse levantamento, tal governador descreve o rio Camboriú onde terminava a jurisdição daquela vila.

Ao analisar mapas antigos, elaborados muito antes de haver quaisquer povoamentos nessa região, Isaque Borba inicialmente destaca, entre certas versões, a grafia Cambori guassu. Para o referido autor, isso derruba a tese de que Camboriú quer dizer onde camba o rio, expressão baseada no fato de seu primeiro povoador ter morado na curva principal do rio (desse lugar).

Segundo Luís da Câmara Cascudo, Cambori significa “robalo” enquanto o adjetivo indígena guassu quer dizer “grande”. Como a foz do Rio Camboriú era criadouro desse peixe que vinha do mar para desovar nesse rio, tal fenômeno leva a crer que a junção desses termos signifiquem “Rio do Robalo Grande”

Isaque destaca o termo Cambriú, versão que até pouco tempo era evitada pelas pessoas idosas que não conseguiam pronunciar tal palavra. Esses falantes então faziam uso do fenômeno linguístico denominado Metaplasmo, isto é, a supressão de letra “o” por síncope. Neste caso específico, reduzia-se Camboriú para Cambriú. Esta também foi a forma redigida na Lei 1076, de 5 de abril de 1884, que assim delibera: a Assembléia Legislativa Provincial aprovou e o Governador Francisco da Gama Rosa sancionou a lei que cria o município de CAMBRIÚ[1].

Sobre seu povoamento inicial, afirma Corrêa, ao contrário do que é propagado pelas entidades culturais e divulgado pela mídia, os primeiros povoadores de Camboriú não vieram dos Açores.

Leva-se em consideração que a primeira grande leva de açorianos chegou a Desterro entre 1748 e 1756. No início eles ocuparam os arredores de Florianópolis e Sul do Estado, até Porto Alegre. Depois foram se estabelecendo em outros espaços próximos ao litoral. Em Camboriú, portanto, a colonização inicial foi feita por portugueses continentais, em especial vindos do Norte [como aconteceu com a antiga Enseada das Garoupas, atual Porto Belo], e vicentistas [da Província de São Vicente-SP], formando-se então as primeiras localidades litorâneas desde São Francisco até Laguna.

Baltazhar Pinto Corrêa, um dos primeiros moradores de Camboriú, veio da cidade de Lamego, Concelho de Viseu, Portugal. E como ele certas pessoas inicialmente se estabeleceram ao norte, por isso parte desse lugar passou a se chamar Bairro dos Pioneiros.  Outros, após eles, vieram do vizinho Concelho de Vila Real, de onde se originou também o nome de outro Bairro de Balneário. (op. cit)

A fundação do primeiro povoado pode ser comprovada por meio de uma carta de sesmaria, concedida a Baltazhar Pinto Corrêa, conforme despacho de Dom Pedro I, a qual apresenta este esclarecimento: [...] podendo fundar no districto uma villa. Tal documento ainda o autoriza a cobrar dízimo dos demais povoadores que inicialmente também se estabeleceram no lado norte.

Baltazhar, então, tornou-se um dos principais sesmeiros, tendo também recebido autorização imperial para fundar uma freguesia. Porém, a lei exigia que as terras doadas sob a forma de sesmarias fossem agricultáveis, como era o caso dos terrenos localizados às margens do rio Camboriú. A tal carta de doação ainda revelava um quesito importante: suas terras situavam-se à margem norte do rio. E ele aceitou essa incumbência, mesmo sob a condição de não cortar madeira de lei[2], nem explorar possíveis minas que ele e outros assentados viessem a encontrar naquele subsolo.

Entretanto, até 1840 a Barra Norte não tinha muitos moradores que tivessem (i)migrado para esse lugar, uma vez que os primeiros povoadores inicialmente se estabeleceram na Barra Norte, local que compreendia também o que hoje se conhece como Praia Brava.

A razão para não haver mais assentamentos (de brancos e negros) até essa época era a presença dos índios em quase toda região. E os forasteiros que pretendessem ocupar a atual Barra Sul sentiam-se amedrontados diante de possíveis ataques àqueles que se atrevessem desmatar certas áreas que eram cobiçadas por sua exuberante mata.

Porém, mais tarde, Pinto Corrêa foi morar na Barra, assim como alguns novos assentados. Ele escolheu terras próximas à foz dos dois principais rios de Camboriú e fez prosperar o povoado.  E devido ao êxito obtido em seus empreendimentos, passou a chamar aquele lugar de Arraial de Bom Sucesso[3]. Foi na Barra, portanto, que se desenvolveu o município.

Baltazhar ainda teve como incumbência formar outros pequenos núcleos de povoamento. Então esse compromisso se tornou um negócio lucrativo para ele e sua família, porque para fazer os assentamentos de casas e engenhos foi preciso derrubar a mata, atividade que, para além de promover a expansão desse lugar, possibilitava-lhe explorar a madeira. E também prosperaram muito tanto a agricultura como também a pesca. E pelo porto de Camboriú passaram a ser transportados, para grandes centros como o Rio de Janeiro, além da madeira, lenha, farinha de mandioca, peixe escalado e seco, produtos agrícolas como batata doce, feijão, arroz, banha, café etc.

Com o advento da Independência do Brasil, muitos comerciantes se estabeleceram na Província de Santa Catarina. Devido a doação de sesmarias, deu-se consequentemente a implantação de muitas povoações no litoral catarinense, de modo particular na foz dos Rios Itajaí, Camboriú, Porto Belo e Tijucas, isso a partir da segunda metade do século XVIII.

 

E sob os auspícios de determinadas autoridades governamentais, antes de montarem seus empreendimentos, os sesmeiros tornavam-se também políticos em busca de eleitores que lhes assegurassem a promoção de mais assentamentos na Província. Isso agradava politicamente não só aos governantes, como às pessoas que vislumbrassem bons negócios ao povoarem a região litorânea. 

À época, dois grandes empresários estiveram à frente de certos empreendimentos, além de suas fortes pretensões políticas, mas que deram especial atenção a Camboriú: um deles, radicado em Itajaí, era o coronel e futuro deputado, Agostinho Alves Ramos; e o outro, morador do Desterro (atual Florianópolis) era o capitalista Anacleto José Pereira da Silva. Esses dois se aliaram aos sesmeiros Baltazhar Pinto Corrêa e Tomaz Garcia (ambos vindos também da Vila do Desterro) e cada qual por seu turno passou a se servir dos benefícios dessa região.

O pretexto para formar tais assentamentos era a derrubada da floresta a fim de preparar chãos para moradia dos futuros assentados. Na verdade, o principal objetivo desses comerciantes era promover o extrativismo da madeira, mesmo que essa atividade fosse controlada pelo coroa portuguesa. Por isso, formou-se uma organização para o corte da madeira de lei que, por influência política, naquele momento tornou-se uma atividade legalizada.

Inicialmente foi a possibilidade de cortar a madeira que incentivou Tomaz Francisco Garcia a se estabelecer na região. Porém, a pedido do Engenheiro da Província, Melo e Alvim, Tomás Garcia adentra ao sertão por mais de meia légua além do rio, via Barranco (atual Bairro São Francisco) e ali se estabelece com sua família e outras tantas, inclusive a de seu irmão, Francisco Garcia, que veio para o Arraial da Barra antes dele.

Garcia não tardou em viver na foz do Camboriú Mirim, o Rio Pequeno, que depois ficou conhecido como Rio Garcia. Então, devido à presença das numerosas famílias dos senhores José Francisco Garcia e Tomás Francisco Garcia (além de mais alguns novos moradores), todos assentados às margens dos dois rios, quando Camboriú passou a ser conhecido como Arraial dos Garcia[4].

 

O Engenheiro Alvim, considerando o sucesso do assentamento de Baltazhar que já formara um bom povoado, sugeriu que a sede da Freguesia de Bom Sucesso fosse transferida para as terras do Garcia. Relatórios sobre o Arraial de Bom Sucesso, realizados por viajantes estrangeiros e também pelo referido engenheiro destacam a “pequenez da logar” (a Barra). 

Essa depreciação é fundamentada por algumas razões até certo ponto enganosas. Inicialmente Alvim criticava o trecho entre Tapera (Itapema) e o arraial da Freguesia de Bom Sucesso, incluindo o Morro do Boi, nestes termos:

[...] Na baixada do morro, junto à Ponta das Laranjeiras, corre o Rio Camboriú, com largura de 35 braças e fundo de 7 palmos, termo médio.   O seu curso navegável limita-se a uma légua. A barra não é boa e só é franca nas altas marés à embarcação que não demandar mais de 4 pés n' água.   O Arraial da Freguesia de Bom Sucesso, há curto tempo criada, tem poucas casas, não excede a 8, e fica junto à estrada e à barra do Rio. 

[...]  

A capela que ali está edificada está pessimamente colocada. Porque a fixaram sobre um barranco e transversalmente ao rio, e a estrada ficando tão próxima daquele, não há espaço para se fazer uma boa praça.

[...]            

O comércio em proporção com a pequenez do lugar é regular e uma prova de que ele prospera, é o grande preço que ali tem as terras.  A importação e a exportação constam dos mesmos gêneros dos outros municípios, tornando saliente na última espécie, a madeira e a farinha para cuja lavoura prestam-se generosamente às férteis margens dos rios [Referência feita ao Arraial do Garcia]. Tem alguns estaleiros, nos quais se têm construído navios do porte de mais de 100 toneladas.       

Biguassu, 1º de abril de 1851.[5]

          Melo e Alvim ainda alega que tal freguesia estava situada entre o morro e o rio, não havendo hipótese de crescimento a resultar num município. E destaca a necessidade de se criar um novo núcleo dentro da própria freguesia.  Para tal, encarregou Tomaz Garcia para formar um novo arraial, considerando que aquele lugar já apresentava uma certa infraestrutura para se tornar até uma vila.

Isaque de Borba Corrêa assegura que a expansão desse lugar deu origem a outra póvoa, o “Arraial dos Garcia”, para onde seria transferida a sede do município, em 1884, e que viria a ser chamada de Camboriú.

Tomaz Garcia tornou-se grande empreendedor e líder comunitário. Ele prosperou rapidamente por causa das suas atividades agrícolas, com destaque para o fabrico da farinha de mandioca. E em agradecimento a Deus por seu sucesso como empreendedor, resolveu construir, em terras que ele mesmo doou, uma modesta capelinha em louvor ao Divino Espírito Santo.

Isso se explica: os ribeirinhos desse lugar se viam desamparados pelos governantes, tanto com relação à pobreza material, como também pela falta de assistência espiritual. Em ambas as situações, tornou-se um completo abandono. E para aqueles moradores nada era mais importante que a sua religião. Sem recursos médicos, sem remédios, acometidos por toda espécie de doenças, o único recurso era apegar-se a Deus e aos santos. Mas também não podia faltar um padre para ao menos ministrar a Extrema Unção aos moribundos, pois a crença era que esse sacramento garantia sua sobrevida nos céus. Essa era a esperança de toda aquela gente.

As primeiras instituições públicas, criadas no início da era colonial brasileira, eram as igrejas da Religião Católica que era oficial e, portanto, tinha um papel relevante por se constituir a principal referência para se realizar qualquer empreendimento.

Por isso, assim que os portugueses chegavam em qualquer lugar, logo erigiram uma pequena capela de madeira e construíam um cemitério anexo, como exigia a constituição episcopal. Uma paróquia, portanto, equivalia a um distrito ou bairro.

Nessa época, a Igreja Católica considerava heresia as denominações laicas, geralmente motivadas pela existência de acidentes geográficos ou por razão metonímica de causa e efeito, como faziam os índios. Então, com base na ciência chamada hierografia, essa igreja modificava os topônimos indígenas para nomes eclesiásticos, a começar pela invocação de um santo padroeiro que denominava a toda uma região. E conforme se dava o crescimento de um arraial, tornava-se uma paróquia, elevada à sede da Comarca Eclesial de toda circunscrição, o que garantia a mudança política para Freguesia.

O desamparo espiritual tornou-se o principal motivo de preocupação das pessoas de Camboriú, retratada em quase todos os documentos antigos. Além disso, o caminho por terra até a sede era ainda muito perigoso. E depois, cavalos eram uma raridade. Cada família tinha o seu, mas era muito pouco para deslocar toda a família. A canoa a remos, com ajuda de velas, era o melhor meio de transporte. Porém as condições climáticas nem sempre lhes asseguravam os deslocamentos. Por isso, toda a pressão do povo recaía inicialmente sobre os padres da Igreja de Porto Belo, mesmo que as pessoas fossem raramente a essa igreja [devido a distância].

Às vezes recorriam à igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Itajaí, porque era mais perto. Mas o povo preferia ir à Igreja de Bom Jesus dos Aflitos, em Porto Belo, pois lá estavam seus conhecidos, seus parentes e especialmente o Pe. Maneca, seu velho confessor e conselheiro. Faziam até pressão para que esse pároco vivesse em Camboriú. E tal cura, por sua vez, pressionava o senhor Bispo e este pressionava o governador. Até ao Vice-Rei o Governador[6] reclamou, em carta datada de 15 de outubro de 1779, sem conseguir resultado imediato.

Os fiéis da ‘enceada do Camboriasu’ viajam mais de 15  léguas em frágeis  embarcações para assistir uma missa”, o  que colocava em risco  dezenas de pessoas desse lugar (op. cit).

Antes da construção de um oratório, as orações eram feitas numa palhoça contígua à casa Baltazhar, uma espécie de alpendre, situado à beira do Rio Camboriú.  Então, um compadre dele, vindo do Desterro, vendo aquele abandono espiritual, prometeu ao povo daquele lugar uma pequena casa de oração.  Mandou construir uma capelinha para abrigar o santo favorito do povo português: Santo Amaro, o qual se tornou o primeiro padroeiro do povoado. E a maior festa da região passou a ser feita na Barra, a cada 15 de janeiro, dia desse Santo, data então escolhida para instalação da primeira sede de Camboriú.

Diante desse contexto, o Bispo do Paraná e Santa Catarina, Dom José Camargo Barros, destinou um sacerdote de Itajaí, Frei Pedro Antônio de Agote, para celebrar algumas missas ali. Mas devido aos seus inúmeros compromissos eclesiásticos na região, às vezes era requisitado um Padre da Penha do Itapocoroy para dar alguma assistência espiritual ao povo desse lugar [Barra]. Mais tarde o Padre João Rodrigues de Almeida, um português, veio para ficar por muitos anos em Camboriú.

No tempo pré-cartorial, todos os atos oficiosos, assim como os registros de terras, eram realizados na Igreja Católica. Os proprietários de terrenos, em toda região, declaravam seus bens aos padres, responsáveis por lavrarem certidões e escrituras. Por força da “Lei das Terras”, de 1856, os cidadãos se obrigavam a declarar suas terras junto às igrejas e, no caso de Camboriú, registrava-se em Porto Belo ou Penha, no Livro de Registro dos Vigários[7].

As primeiras atividades religiosas em Camboriú são descritas   pelo historiador Édison D´Àvila34, nestes termos:

Sobre as atividades da tradicional Igreja Católica, colhemos ainda no Século passado, quando aqui chegou para prestar assistência religiosa aos moradores, o Frei Pedro Antônio de Agote, em 03 de setembro de 1814. Convidado pela Capelania de Armação de Garopaba, tomou posse em 30 de novembro do dito ano. Após quatro anos e oito meses, passou a ocupar a Capelania de Nossa Senhora da Armação da Piedade onde permaneceu até o dia 1º de janeiro de 1823, vindo a residir na Barra, em casa de Antônio Soares da Silva. Com a presença de um vigário foi possível a construção de um oratório. (op. cit. ., p.111)

No império os padres eram funcionários públicos e recebiam côngruas, isto é, uma remuneração mensal como os demais servidores. Porém, com o advento da Proclamação da República, deu-se a separação entre a Igreja e o Estado, o que favoreceu o assentamento de várias outras religiões, reduzindo drasticamente o poder da Igreja Católica. Antes, a instituição do casamento civil era privilégio dessa igreja que detinha a exclusividade de realizar matrimônio. Segundo Rebelo (1997)[8], houve intensa reação a este fato e se ouvia dizer que uma mulher que não casasse na Igreja seria uma “prostituta testemunhada”.

Em 1849, afirma este autor, o Arraial de Bom Sucesso de Camboriú foi elevado à freguesia (no termo de Vila de Porto Belo), tornando-se distrito eclesiástico, até a transferência de sua sede para a Vila dos Garcia.

Então a Igreja de N. S. do Bom Sucesso começou a ser construída em já em 1849, feita com argamassa com óleo de baleia, pedras brutas e conchas. E somente foi concluída em 1861.  Nesse ano foi realizada a primeira e memorável Festa do Divino Espírito Santo sob a idealização do Pe. João Rodrigues de Almeida.

Voltando-se à vertente política, assim afirma o historiador José Ângelo Rebelo[9]:  [...] em 1890, a sede da Vila de Bom Sucesso, mudou para a Vila dos Garcia. Segundo Rebelo,

A transferência da sede da Barra para o Garcia não se deu por nenhum instrumento legal, nenhuma determinação da Assembleia provincial. Simplesmente roubaram os livros da Casa de Câmara numa madrugada, como está revelado no próprio livro e se instalaram no Garcia. Assim se deu a transferência da Sede de um lugar para o outro.

Então, de acordo com as Resoluções Municipais 1233 e 1236, de 2 de agosto de 1894, depois que a sede da Intendência se mudou da Barra para a Vila dos Garcia, os Conselheiros transformaram aquele antigo lugar num simples Distrito de Paz e Policial, apenas para atenuar o ato de transferência da sede administrativa. Porém, e em 07 de abril de 1895, o referido Conselho dissolveu tal distrito sob a alegação deste onerar os cofres municipais.

Pelas mesmas motivações, a sede da Paróquia da Barra também foi transferida para a Vila do Garcia.

No caso de Camboriú, na Capella da Vila Garcia já era venerado o Divino Espírito Santo e por isso continuou essa invocação depois que foi transferida da Barra para a sua atual sede.

A respeito da escolha de nomenclatura para uma determinada paróquia, Dom Manoel João Francisco[10] assim esclarece:

Quando se dá a transferência de uma sede paroquial para outra comunidade, o santo que já era o padroeiro na igreja desta nova sede, ou seja, aquele que é venerado neste local, este é que passa a ser o padroeiro da nova paróquia.  (Santos da Silva, 2017)

Considerando-se o tempo que foi instalada a Paróquia de N. S. do Bom Sucesso, somado ao tempo após sua transferência para tornar-se Paróquia do Divino Espírito Santo, portanto sua nova sede, a 16 de abril deste ano comemorou-se 170 anos da fundação da Paróquia de Camboriú.

Consta do Anuário (2015) da Arquidiocese de Florianópolis que

[...] a Paróquia do Divino Espírito Santo de Camboriú foi instalada na então Freguesia de Camboriú, a 16 de abril de 1849, por meio da Lei Provincial 1076, criando-se assim a sede da Paróquia do Divino Espírito Santo em Camboriú[11].

[...]

Cem anos depois, na década de 1940, foi construída uma nova Igreja em sua sede.  A inauguração da atual Matriz aconteceu em junho de 1949, e teve como motivação a festa do seu padroeiro, o Divino Espírito Santo. Esta foi a primeira e definitiva festa nesse templo dedicado ao seu Divino padroeiro, pois, até então, as celebrações ao Santo Espírito de Deus eram realizadas na Barra desde 1861.

E no que diz respeito aos acontecimentos no âmbito religioso, José Ângelo Rebelo ainda narra, com muito humor, certos acontecimentos da esfera sócio-político-cultural. A respeito das primeiras confissões evangélicas estabelecidas em Camboriú, ele assim registra, de modo específico, a presença dos Metodistas na região desde 1906: [...] o embate entre católicos e evangélicos, naqueles tempos, foi muito forte, com graves acusações de ambos os lados. Rebelo descreve a animosidade existente entre os católicos e os membros desta confissão religiosa.

Tal autor relata, de modo bastante descontraído, o que aconteceu em Camboriú no início do século passado, assim afirmando:  [...] um sepultamento em massa que ocorreu nessa comunidade, de pessoas vítimas de epidemia da gripe espanhola, e que assolou toda a região no século passado.

José Ângelo Rebelo ainda prossegue:

 

[...] Para continuar com os sepultamentos, era preciso ampliar o cemitério municipal [...]

[...] havia uma cerca de arame farpado que o dividia em duas partes. Na do lado direito eram sepultados os corpos dos católicos e na outra [parte] os de protestantes[12]. As disputas entre essas duas seitas (sic) eram tais que mais pareciam dois partidos políticos. Não se sabe, porém, se a cerca continuou instalada no “céu”, ou no “inferno” [grifos do autor], para onde todos se foram. (REBELO, 1997, p. 229-230).

De acordo Isaque de Borba Corrêa[13],  Pe. João Rodrigues de Almeida, o idealizador das Festas do Divino Espírito Santo, atuou na Barra de 1861 até 1865. Depois, a partir 1894, Pe. Almeida voltou a atuar como pároco da Vila dos Garcia até o início do século XX.

Rebelo complementa que a transferida da sede administrativa da Barra para o lugar Garcia gerou grandes protestos por parte do Pe. João Rodrigues de Almeida, pároco até então da Paróquia de N. S. de Bom Sucesso. Como naquelas últimas décadas alguns políticos já estavam vislumbrando a implantação da República, Pe. João Rodrigues, que era um político conservador, perdeu poderes políticos para lutar contra aquela atitude dos republicanos. E mesmo tendo protestado com toda a veemência, nada impediu a transferência da sede. 

Diz a lenda que ele excomungou os membros da Intendência, rogando-lhes severas pragas. Uma delas, com relação à localidade do Garcia, era que este lugar não haveria de crescer por cem anos.

Aparentemente foi o que aconteceu.  Porém, após seu centenário, o Município de Camboriú se tornou mais próspero, tornando-se conhecido como a Cidade do mármore, extraído principalmente no Morro da Congonha. E também se destacou com a extração do granito que foi explorado em grande escala principalmente na Vila da Pedra. Camboriú ainda se sustentou por um bom tempo com a exploração da madeira, da cerâmica (telhas e tijolos), destacando-se também na agricultura, que já foi sua principal economia, cuja base foi o plantio da mandioca, do arroz e do café.

Porém, ao mesmo tempo que diminuíram suas atividades agrícolas, surgiram os serviços secundários e cresceu o mercado imobiliário, pois um grande contingente humano, oriundo de vários Estados do Brasil, passaram a adquirir propriedades no centro e até mesmo no interior do Município. Por isso, nas últimas décadas, Camboriú se expandiu em todas as direções, mudando seu cenário que, por se tornar mais populoso, teve como resultado a mescla de sua cultura com as dos migrantes que para aqui vêm todos os dias em busca de qualidade de vida. E esse crescimento fez surgir neste Município um comércio bastante diversificado, e até se desenvolveu o turismo em localidades rurais.  

O cenário educacional também evoluiu com a implantação de vários estabelecimentos educacionais regulares e também escolas profissionais, inclusive dando-se a implantação do Ensino Superior. Camboriú atualmente ainda conta com algumas escolas de idiomas estrangeiros, de música, de dança e de esportes em geral. Na área da saúde também houve avanços. Deu-se a instalação de um hospital, uma policlínica e o único posto de saúde, antes situado no centro da sede, foi substituído por novas unidades de saúde, instaladas em todos os bairros do Município.

Quanto ao aspecto religioso, são muitas as confissões, além da Igreja Católica, que se estabeleceram em Camboriú, tais a pioneira e centenária Igreja Presbiteriana.

A Igreja Assembleia de Deus, que neste Município se instalou na década de 1950, instituiu há mais de trinta anos, o Congresso Internacional dos Gideões Missionários da Última Hora o qual tem divulgado Camboriú pelo País e até no exterior, o que também vem promovendo o Município em termos econômicos.

Até 1949, as Festas do Divino eram realizadas na Barra, celebrações que nesse local perpassaram em torno de oitenta edições. E somente a partir dessa data, com a inauguração da nova Matriz, na nova sede de Camboriú, é que se promoveu uma única e definitiva festa do Espírito Santo que continua acontecendo como uma grande atividade de tradição e fé. Economicamente, essa festa tradicional movimenta todo o Município, pois atrai devotos de toda região, o que a fortalece a cada ano.

Em 2017 foi celebrada, com muito júbilo e pompa, sua 150ª edição[14], se considerado seu início na Barra (Bal. Camboriú), em 1861, somada a sua continuidade na nova sede da Paróquia a partir de 1949.

Daí para a frente, a Igreja Católica assim cognominou este Município: Camboriú, cidade do Divino Espírito Santo.

 

 

 

 

[1] Coreografia da Capitania de Santa Catarina, nos termos de Dante de Laytano - V. 245, p.132 - 1959. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, apud Corrêa (1985).

 

[2] Na época da colonização do Brasil as madeiras [de lei] eram consideradas estratégicas para a construção de navios e defendidas pela lei do reinado, por meio de decreto outorgado pelos governantes da época.

[3]  Corrêa (op. cit.)

[4] Corrêa, op. cit., p. 25.

 

 

[5] Livro de Engenheiros - Período de 1846 a 1857- p 179 - Arquivo Público do Estado [SC].

[6] Dr.  Francisco Barros Morais de Araújo Teixeira Omen

[7] Somente em 1890 é que foi criado o Cartório de Registros Públicos no Brasil. E no ano seguinte já passou a funcionar em Camboriú, tornando-se possivelmente o mais antigo do Estado e até deste País.

[8] Op. cit.

[9] REBELO, Angelo José. SEM HISTÓRIA NÃO DÁ, pp 30 e 31.

[10] Atualmente Dom Manoel João Francisco é Bispo em Cornélio Procópio/PR, mas ele já foi pároco em Camboriú entre 1985 a 1988.

[11] D’Ávila, In Pequena história de Itajaí. Fundação Genésio Miranda Lins, Dehon: Itajaí/SC, 1982, p. 111.

[12] O referido historiador deve estar considerando que protestantes são todas os membros das diversas confissões religiosas cristãs, e que seguem dogmas diversos, portanto diferentes da confissão religiosa Católica Apostólica Romana.

[13] (op. cit., p. 52)

[14] Confira: Camboriú, cidade do Espírito Santo (2017), de autoria de Tereza Santos da Silva.

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Mitos e Homens

 

Homens e Mitos em tudo diferem!

Aqueles são filhos do bem e estes origem do mal.

Feitos de ilusão, iluminam e escurecem ...

Mitologicamente explicam o mundo.

Vida sobrenatural sem sentido profundo!

Enquanto porção homem, buscam um ideal,

Sendo humanos, sofrem com sua dor carnal.

.

Mitos vingam seus desafetos,

Homens prudentes, jamais!

Mitos se dispersam em noites sombrias...

Homens e mitos não são nada iguais!

Aos vingativos, a consciência humana grita...

Eclipsados, mitos ignoram as leis da vida,

Olvidando a universal e necessária paz!

 

Em busca de metas inatingíveis,

Na ânsia de despontar um ser maior,

Mitos corrompem porque são falíveis...

Homens anseiam vida sem suor,

Passível de levá-los à solidão e à dor.

Aos mitos compete explicar a natureza.

Aos homens cabe unicamente vivenciar o amor!